sexta-feira, 17 de junho de 2016

SOBRE O ATAQUE EM ORLANDO




A intolerância está matando. Olhar para Orlando e constatar este episódio triste é constatar que como humanidade estamos escrevendo a pior história. As páginas recentes de nosso livro-mundo evidencia o quanto nossa humanidade não amadureceu. Vou explicar.
O desastre de Mariana, o ataque na França, as embarcações afundando no Mediterrâneo, o problema da Síria, a situação caótica do Equador (mesmo que por desastre "natural"), a eterna situação de pobreza na África, a violência contra a mulher no Brasil, o ataque em Orlando (e tantos outros ocultos por aí), a crise política na América Latina, a crise ecológica citada por Francisco... Enfim, evidencia nossa total desarmonia neste universo. Nossa incapacidade social de sermos éticos, prudentes, de viver o diálogo nas diferenças, de sermos escuta verdadeira, bons samaritanos com os que estão às margens, de sermos pró-ativos na ação política que garanta o bem-viver, nossa incapacidade de formarmos pessoas com sensibilidade nobre para com os outros. Questionamos, mas nossos argumentos são artificiais, tão sem referenciais, tão velhos e tão manipulados...
O mundo acelerou-se. A mudança de época faz tempo que chegou, faz tempo que é citada. Só não mudamos nós. O outro me causa medo, me faz ter sentimentos de rejeição ou até mesmo de superioridade sobre ele. O sentimento de purificação está no ar. Novos guetos estão sendo formados e novas periferias estão sendo obrigadas a se nuclear... Cheiro de arianismo no ar?... Do "Nós e os Outros"?
Enfim, o fato de Orlando mexeu comigo. Deu medo na alma e me chamou em causa para o meu papel social no mundo. O que estou fazendo para alicerçar a cultura do encontro verdadeiro? Quais ações minhas reforçam essa maré de intolerância com o que é diferente de mim? Diante de todos os adjetivos que o outro possa ter, o concebo na sua essência primeira, como pessoa humana?
Doeu em mim, porque, por um momento, senti a dor dos familiares e amigos das vítimas. Pensei em meus primos, nas minhas primas, nos meus amigos e nas minhas amigas. Pessoas!
E o que dizer aos que virão sobre este fato?
_ Morreram de quê?
_ Morreram de intolerância!
_ Mas mamãe, intolerância mata?
_ Mata filhinho... Mata e silencia muitos... Mata e justifica por que matou...
Façamos a nossa parte na construção de um Outro Mundo Possível, onde TODOS sejam respeitados por sua condição humana.
Um pensamento orante aos que morreram, até para quem atirou, fez sua passagem justamente com aqueles que não tolerou...
Abraço de Luz!

SOBRE ESTARMOS TODOS EM UM TITANIC


(Se você se escandaliza com as palavras, não leia... Te avisei)

Comecemos com uma constatação: o grande navio foi abalado e está se afundando aos poucos. Outra constatação: temos pessoas dentro deste navio. Pessoas. Mais outra constatação: os recursos são poucos para garantir de imediato a sobrevivência, se não de todos, ao menos da maioria.
Ecoa no absurdo vazio: SALVE-SE QUEM PUDER!
Daí a euforia egocêntrica!
Esta semana constatei que, onde quer que estejamos, estaremos no eterno Titanic... O que dói na alma, não é constatar o fim fatídico de um navio que afunda. Quer saber o que dói? Dói constatar que aquelas mazelas elitizadas se perpetuam. Estratégias imediatas para salvaguardar os interesses primeiros de grupos privilegiados. Este é o mal. Em todo espaço (na sociedade, na política, e nas igrejas/religiões) tem sempre um grupo privilegiado, que pode ser por legitimidade ou por pura soberbia. E, em grande parte da história, são sempre eles a decidirem a vida dos demais. São sempre eles os inteligentes. São sempre eles os entendedores da análise de conjuntura e da economia. E, em grande parte, são sempre eles os "eles", pois mulher não tem perfil para traçar estratégias e buscar soluções duradouras. E somos sempre nós a sofrer o impacto de suas decisões, atônitos sem muito entender ou acreditar no que está acontecendo...
Vamos minha gente! O navio está afundando. Não nos iludamos, não corramos atrás dos senhores dos privilégios. Seu universo é muito pequeno para que caibamos todos. Corramos atrás dos ratos, ao menos eles nos ajudam dando-nos pistas para nossa sobrevivência.
Pensei que o difícil da vida fosse lutar, sol a sol, por minha sobrevivência. Mas, as duras penas, constato que o difícil mesmo é sobreviver neste sistema excludente e sedutor, que dita regras com elegância, com diplomacia, nos cálculos econômicos e na falsa acolhida de nosso ser mulher no mundo.
E me perdoem minha ousadia, mas ter vagina (fique claro que usei o nome técnico) neste mundo parece como ter um diploma de burrice desde o dia do nascimento... Não, não estou levantando nenhuma bandeira feminista. Apenas apresento em palavras o que constato na observação diária. Estamos no mundo e não somos cegas. Estamos no mundo e sofremos com esse sistema que dita a etiqueta para o homem e para a mulher... E meu alerta interior é que, infelizmente, este sistema econômico está muito invasor de nossas relações interpessoais, de nossas relações fraternas, até mesmo dentro dos espaços de nossa experiência de fé e comunionalidade...
Enfim, o Titanic está aí... E você o que fará? Vai pensar junto para o bem de todos ou vai pensar sozinho e para o privilegio de poucos?
Você seria capaz de dar sua vida salvando tantas outras?
Você seria capaz de escutar o outro que é diferente de você ou já o rotularia naquilo que pseudo-conhece? Você escolheria as pessoas que estariam no bote salva-vidas com você? E sobre aqueles que restariam perdidos nesta história... Seriam eles aqueles que não conseguiram entrar no bote, por um motivo ou outro, ou seriam aqueles que, desde o início da tragédia, já foram "concebidos" como cartas fora do baralho dos privilegiados?
Vamos nesta loucura... Só não me digam "salve-se quem puder"...
Sim, estou lutando comigo para sintonizar dentro de mim a utopia e a esperança... Estou lutando dentro de mim para não me conceber, e nem às outras mulheres, como o lixo vaginal que este sistema insiste em dizer que somos...
O sistema é bruto e elitista! Mas o pior não é isso! O pior é reconhecê-lo machista, mesmo que a frente tenham outras mulheres. Aí você constata que não se trata de gênero ou sexo masculino ou feminino, mas é o cultural. O sistema é bruto e o machismo é cultural. E o navio está afundando... Fique alerta!
Abraço de Luz!
(Sou mulher, sou leiga, sou escritora e questionadora... Não gostou do que leu, não posso fazer nada, não sei escrever contos da carochinha)